Vida em crédito

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Anónimo

Sou adita a comprasas desde criança. Pois é, pode parecer inacreditável, mas é mesmo verdade.

Em criança os meus pais davam-me dinheiro para comprar o lanche na escola, e gastava sempre mais do que me mandavam, mas eram tudo coisas desnecessárias e que nem me alimentavam.

Os meus pais alertavam-me, mas como eu era nova lá me iam desculpando, dizendo que eu ainda não tinha noção do dinheiro. Os anos foram passando e os meus pais iam sempre protegendo-me.

O descalabro chegou quando comecei a trabalhar em part-time, e acabava de entrar na faculdade. O ordenado, mal o acabava de receber, já estava todo destinado para roupas, maquilhagem, calçado, malas… Tudo coisas desnecessárias e que na maioria das vezes acabava por nem usar.

Entretanto casei e fui viver com o meu marido. Aí tudo piorou em grande escala. Comecei a fazer créditos atrás de créditos, sem comunicar ao meu marido. Cheguei mesmo a falsificar a assinatura dele. Como era eu que geria as contas de casa, ele não imaginava o que se passava.

Até porque eu tinha o cuidado de cortar as etiquetas das coisas e deitar tudo fora e como ele era meio “despistado”, não perceberia que eu estava constantemente a estrear coisas. Entretanto, como não conseguia pagar tudo, inevitavelmente o meu nome acabou por ficar sujo no banco. Ainda consegui esconder esta situação algum tempo, até que o meu marido decidiu que era tempo de mudar de casa e fazia questão de ter o empréstimo bancário em nome dos dois.

Aí é que fui descoberta, porque não podia pedir nada em meu nome. Tive que confessar tudo e o meu marido nem queria acreditar na dívida que eu já tinha acumulado, dezenas de milhares de euros, gastos em roupa, maquilhagem, lingerie, jóias… Ameaçou deixar-me, caso em não fosse fazer tratamento.

Andei em psicólogos e de nada me valeram, porque eu continuava a fazer compras de forma desmedida.O meu marido, farto da situação, deixou-me. Regressei a casa dos pais com o coração desfeito. Mentalizei-me de que tinha mesmo que mudar de vida.

Entrei por iniciativa própria em VillaRamadas e comecei logo a sentir melhorias. Confesso que os primeiros meses foram complicados, mas sempre que vinha de break a casa ficava mais animada, porque sentia que estava a mudar.

Terminei o tratamento com sucesso e nem imaginam o que me aconteceu: foi o meu marido que me foi buscar no último dia. Fiquei doida de felicidade!

Afinal ele continuava a amar-me e os meus pais iam-lhe dando feedback do tratamento.

Voltei a controlar as contas de casa e o meu marido confia plenamente em mim. Nunca compro por impulso, analiso bem os prós e contras.

Sinto que este tratamento mudou a minha vida e que fazer compras compulsivamente é uma doença maldita que deve ser tratada, antes que dê cabo da nossa vida.

Se houve dinheiro que nunca me arrependi de gastar, foi o do tratamento, pois foi assim que renasci para a vida.

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