Quatro dias numa clínica para viciados

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20-01-2011
Sábado

REPORTAGEM. AS ROTINAS DE UM GRUPO DE ADICTOS EM REABILITAÇÃO

4 DIAS INTERNADOS...

…Com uma viciada em Internet, dois alcoólicos, três depressivos profundos, um anoréctico e seis toxicodependentes, alguns sem controlo da agressividade, outros obcecados por compras, sexo e pornografia. Por Vera Moura/Fotos Alexandre Azevedo

Diana esperou que os terapeutas se fossem embora, às 17h, para insistir com a monitora de serviço naquela noite que queria deixar a clínica de reabilitação. "Quero ir para casa. Quero ligar à minha mãe para me virem buscar", repetiu até exaustão com a voz arrastada, os olhos mortiços e o pijama de flanela azul vestido, que não tirou todo o dia. Encostada à porta do único quarto sempre trancado (o que pertence aos terapeutas e monitores e onde está guardado o telefone fixo), ouviu a resposta de sempre: não. Os telemóveis são completamente proibidos, cada pessoa só tem direito a receber duas chamadas de 10 minutos por semana e aquela não era noite de telefonemas.

A jovem de 23 anos está internada há um mês e meio, mas continua a não se adaptar ao tratamento de Villa Ramadas -o centro de terapia de dependências químicas, psicológicas e emocionais onde a SÁBADO esteve hospedada durante quatro dias a acompanhar as rotinas de um grupo de 14 adictos. Como acontece com todos os dependentes internados, à chegada recebemos um kit, com um lençol, uma capa de edredão, uma fronha e duas toalhas, para fazer imediatamente a cama. Depois, um terapeuta avisou: todas as manhãs, os quartos são inspeccionados, incluindo o da SÁBADO. Se não estiver arrumado, são atribuídos castigos, como lavar a loiça. Diana, viciada em Internet, já tinha tentado de tudo para se ir embora antes de a SÁBADO chegar: violou as regras da instituição, faltou às terapias de grupo, desrespeitou os horários rígidos, atrasou-se na entrega de trabalhos escritos, simulou uma falsa boa disposição para convencer os médicos de que estava curada e até chegou a dizer que andava a ouvir vozes e a ter visões. Naquela tarde, as suas exigências e ameaças foram subindo de tom, causando incómodo entre os outros hóspedes da casa, que aproveitavam o período livre até à hora do jantar, às 19h30 em ponto, para descansar, ler, ouvir música ou jogar Wii na sala comum -a única divisão da casa com televisão. De repente, Diana parou de gritar, atravessou a sala acorrer, entrou na cozinha e dirigiu-se à gaveta das facas. Chegou a pegar numa muito afiada, ameaçando matar-se, mas foi agarrada a tempo. As facas ficaram trancadas na despensa nos dias seguintes.

Diana foi abusada sexualmente por um tio quando tinha 7anos. Na escola, era vítima de bullying por ser baixa e ter os dentes tortos. Encontrou no computador o refúgio perfeito para a sua vida: em salas de chat e redes sociais como o Hi5 e o Facebook conhecia pessoas novas e arranjava namorados. A vida sexual também começou no computador - chegou a masturbar-se para a webcam mais do que uma vez, a pedido de homens por quem afirmava estar apaixonada. Ficou obcecada por um deles, que rapidamente a trocou por outra, levando-a à sua primeira tentativa de suicídio. A partir de então, deixou de estudar e não saía do quarto: só dormia (ajudada por antidepressivos receitados por psiquiatras) e navegava na Internet. Para comer, esperava que a mãe lhe levasse tabuleiros.

Catarina, 54 anos, também teve uma fase em que não punha os pés fora de casa. Quando decidiu começar o programa dos 12 Passos de Villa Ramadas, há oito meses e meio, já tomava 25 comprimidos por dia. "Só dormia e não sentia nada -não me ria nem chorava. Quando me levantava para ir à casa de banho ia contra as paredes, não acertava no buraco da porta", conta três dias antes de deixar a Casa da Feteira, uma das unidades que pertencem à clínica de reabilitação de Alcobaça e por onde circulam pessoas com transtornos que vão da anorexia ao vício do jogo, toxicodependência ou alcoolismo.

PARA OS RESPONSÁVEIS deste centro, todas as dependências, químicas ou comportamentais, são "doenças de sentimentos" e podem ser tratadas em conjunto, ao contrário do que a maioria das clínicas em Portugal faz. Na Feteira, os 14 viciados dividem-se pelos seis quartos de camas individuais (quatro no piso térreo e dois no primeiro andar) sem distinção do seu tipo de dependência. Uns têm fotografias de familiares na mesa-de-cabeceira ou coladas na parede; outros peluches ou cachecóis de clubes de futebol na cama. A SÁBADO não teve de partilhar quarto com uma toxicodependente como inicialmente estava planeado: Inês foi de break (saída da clínica a que os adictos têm direito de dois em dois meses) e só regressou na semana seguinte.

Catarina está internada por causa de uma depressão tão profunda que a levou a tentar o suicido mais do que uma vez. Também tem uma compulsão para as compras. É o organismo público onde trabalhava antes de ficar três anos de baixa que paga a mensalidade de 2.750 euros. Quando sair, tem o emprego garantido e deverá estar preparada para, num centro comercial, resistir a comprar coisas fúteis. Antes da pior fase da sua depressão, em que passava os dias na cama, comprava sapatos que não lhe cabiam e roupa repetida, pelo mero prazer de consumir.

"A primeira vez que fui de break fiquei bloqueada numa rua de lojas. Tinha a certeza de que se entrasse na primeira ia ter uma recaída e comprar tudo o que me aparecesse na frente. Aqui, ensinam-nos que o telemóvel é o nosso maior aliado -podemos sempre pedir ajuda. Eu liguei a um terapeuta que me disse para ir andando enquanto conversávamos. Quando dei por mim, estava no fim da rua. Foi um alívio", recorda durante o almoço de quarta-feira, enquanto abusa do picante que põe na pizza.

A financeira confia em que, agora, tudo será diferente. Já consegue chorar. E rir também - a julgar pelas gargalhadas que, logo de manhã, se ouvem no quarto que partilha com Cristina (alcoólica) e Pilar (toxicodependente e bulímica). Mas Leonor ainda se sente triste. Deixa o filho Xavier, de 16 anos, internado por mais uns meses noutra das casas. É o mais jovem habitante de Villa Ramadas e o seu problema são as drogas leves.

Francisco era bem mais novo do que o filho de Catarina quando começou a consumir álcool e experimentou canábis: tinha 11 anos. Passou para as drogas pesadas aos 15, para só parar quando, vendo o desespero da mãe, entrou para o centro terapêutico. Pelo meio, cometeu loucuras, como aquela vez em que conduziu a alta velocidade sob o efeito de álcool e drogas na auto-estrada -em marcha – atrás. Ou a outra em que agrediu um amigo de forma violenta por causa de uma discussão.

Há quatro meses em tratamento, o estudante de 20 anos está saturado. Isola-se nas mesas à volta da piscina e, nos tempos livres, dá voltas à casa com os headphones a tocar música trance no volume máximo. Depois do almoço (frango com arroz, batatas fritas e salada e gelatina para a sobremesa), numa terapia de grupo, é desafiado a partilhar o que está a sentir.

AS SESSÕES COLECTIVAS decorrem na sala de estar (a mesma onde, depois do jantar, os adictos podem ver televisão durante duas horas) e começam com a apresentação de cada um dos participantes, incluindo psicólogos. Os doentes que querem desabafar dizem: "Gostaria de usar o grupo." A decisão de quem fala primeiro, porém, é sempre dos terapeutas. "Queres dizer-nos o que se passa contigo?", atiram a Francisco. Ele encolhe os ombros. Suspira. Contorce-se no sofá e responde que não sabe, para pouco depois confessar que tem a certeza de que se saísse nesse momento, teria uma recaída. Anda com vontade de consumir.

Os outros pacientes estão solidários com ele e têm oportunidade de falar a seguir. Ninguém o pode interromper nem ninguém pode ser interrompido. É pedido a todos que sejam assertivos, mesmo que para isso tenham de ser brutos com os colegas. O objectivo é mesmo esse: fazê-los sentir vergonha do passado. Paulo, toxicodependente e alcoólico com compulsão para mentir e dificuldades de gestão da raiva (agrediu o pai antes de ser internado), avança: "Não te tivesses metido nas drogas que não tinhas saudades delas. Agora, aguenta-te."

GONÇALO, TOXICODEPENDENTE de 32 anos e repetente neste centro, oferece-se para fazer um minigrupo com Francisco depois da terapia colectiva (os minigrupos são conversas de nove minutos que podem decorrer no jardim ou no alpendre em que cada um dos três participantes tem três minutos para falar).Sabe o que é estar a meio do tratamento e ter momentos de ressaca. “ Comecei a beber e a fumar haxixe muito novo com amigos mas, agora que penso nisso, percebo como já tinha um comportamento diferente. Bebia até cair. Uma ganza não chegava. Queria sempre mais e mais”, recorda, num intervalo entre duas sessões, enquanto fuma vários cigarros. Entrou pela primeira vez em tratamento em Março de 2008 , altura em que não tinha nada em casa tirando um sofá. “Vendi tudo para consumir. Cheguei a traficar haxixe, mas coca não – não me sobrava nada.”

Casado e pai de um filho de 2 anos, esteve nove meses internado e aguentou mais alguns sem consumir químicos. Mas ai refugiou-se nas outras dependências: o sexo e a pornografia. “Eram cada vez mais mulheres, cada vez mais porcaria. O que sentia antes e depois era como a adrenalina e a ressaca que as drogas proporcionavam." Proprietário de um restaurante, está de regresso a Alcobaça para reabilitação há um mês (os repetentes não costumam ficar mais do que três) e quando sair não pretende voltar a trabalhar na área. “Para nós que somos doentes é muito difícil lidar com a pressão dos clientes, as reclamações, as bebedeiras e os que vão cheirar à casa de banho. No fim de um dia cansativo, não nos lembramos de pedir ajuda e achamos que merecemos só uma linha. Só uma. Mas quando cheiramos a primeira, já não conseguimos parar.”

Pedro trabalha há muitos anos em discotecas e anda atormentado com essa questão: o que vai fazer quando abandonar Villa Ramadas? “Sei que o meu trabalho é o recreio das minhas adições: o álcool, as drogas, o sexo e a agressividade. Mas não sei se quero deixar a noite. Não sei o que faria e o dinheiro que recebo permite-me sustentar a família inteira.” A terapia de grupo da manhã dedica-se ao debate do problema deste toxicodependente musculado e cheio de tatuagens.

As duas terapeutas de serviço naquele dia estão misturadas com os adictos nos sofás que contornam a sala com um tapete às cores no meio. Ouvem com atenção e fazem poucas perguntas. Uma delas, ex-toxicodependente (alguns dos terapeutas e monitores de Villa Ramadas são antigos adictos em recuperação), responde-lhe friamente:”Isto é uma escolha. Podes escolher a porcaria de vida que tinhas ou as sugestões que aqui são dadas. Também podes escolher o quarto piso de um hospital, o da psiquiatria, e ficar lá a babar-te o dia inteiro. Tens comida e roupa lavada. Mas não tens vida.”

Alexandre, 19 anos, nunca experimentou drogas, não andou à pancada, não apanha bebedeiras nem teve muitas namoradas, mas ainda assim identifica-se com Pedro. “ A noite é um lugar mau para ti, como a universidade é para mim”, diz-lhe o anoréctico que chegou a pesar 41 kg antes de ser internado. “Na semana passada, quando os meus pais me ligaram, perguntaram se deviam continuar a pagar as propinas, mas eu adiei a decisão de continuar a tirar o curso: agora tenho é de me concentrar no presente, no tratamento. Todos os dias repetimos os lemas - ‘Mais 24 horas’ e ‘Só por hoje’ - e tu já queres decidir o que vais fazer daqui a quatro meses!”

São 7h30 quando batem à porta do quarto. Nem um minuto atrasados. “Bom dia”, repetem do outro lado até ouvir resposta, para garantir que todos estão acordados. Quinze minutos depois, o ritual repete-se. É assim todos os dias. As regras em Villa Ramadas são rígidas e levadas a sério - tanto por terapeutas como por doentes. “ As pessoas chegam aqui com a vida completamente desgovernada. Terem um horário rigoroso, tarefas e normas a cumprir são os primeiros passos para se prepararem para a superação”, explica SÁBADO Eduardo da Silva, director clínico de Villa Ramadas.

O PSICÓLOGO TRABALHOU em vários centros de tratamento em Londres enquanto terminava os estudos e chegou a director – executivo da Westem Counselling Services, urna das clínicas de reabilitação mais respeitadas do Reino Unido. Trouxe para Portugal o conceito. "Mas isto só funciona para quem quer ser tratado -estar aqui obrigado não dá. Por isso é que não há portões: quem quer ir embora é livre de o fazer."

É isto mesmo que especialistas e dependentes repetem a Diana, que continua a querer ir para casa, antes mesmo de tomar o pequeno-almoço -que inclui pão acabado de sair do forno, manteiga, queijo, fiambre, leite e café. "Pega nas malas e vai. Os teus pais não te vêm buscar; tu nunca trabalhaste e nem dinheiro para um táxi tens. Pega nas malas e vai a pé", diz-lhe Francisco.

Diana não reage às provocações. Nem quando lhe dizem que é cobarde e preguiçosa demais para fazer a pé a subida longa e íngreme que separa a casa isolada da estrada principal, onde se vêem as primeiras casas e pessoas. Simplesmente cala-se para depois voltar à carga, à porta do gabinete dos monitores. "Quero ir para casa. Quero ligar à minha mãe para me virem buscar."

Diogo, 33 anos e neto do fundador de urna das maiores empresas de construção do País, tem pouca paciência para os adictos que sofrem de depressões e outras doenças psiquiátricas. "A droga deles é andarem maldispostos", descreve. O toxicodependente está em Villa Ramadas há seis meses, mas anda a ser tratado em clínicas de reabilitação há 15 anos. A primeira vez que experimentou cocaína tinha 14 anos e desde então nunca mais parou. O tempo máximo que conseguiu ficar sem consumir foi dois meses e, uma vez, recaiu na noite em que abandonou um centro. Perdeu a conta das vezes que fugiu para se ir drogar.

Chega inesperadamente ao terceiro dia da SÁBADO na clínica com "sete dias de aviso"; depois de uma discussão por causa de um comentário de que não gostou numa terapia de grupo, tentou andar à pancada com um paciente de outra das casas. Empurrou-o, mas foi agarrado por um monitor. Se volta a pisar o risco na próxima semana, é expulso. Os colegas não ficam surpreendidos com a chegada do novo hóspede a meio da tarde. Na sua primeira partilha, acusam-no de brincar com os tratamentos, não ter objectivos e andar sempre a gabar-se do que os pais e os avós têm. Ele tenta defender-se, mas os terapeutas impedem-no de entrar em diálogo. "Agora é para ouvires."

Catarina confronta-o com uma carta que ele lhe mostrou meses antes. "Era da tua mãe, lembras-te do que dizia?" "Sim, que só queria que eu fosse feliz", respondeu-lhe Diogo. "É verdade", continuou a depressiva e shopaholic. "Mas também dizia que, se não mudasses desta vez, nunca mais voltasses para casa porque não aguentava mais. Só uma mãe desesperada diz isto a um filho.”Diogo tapou a cara com as mãos, mas depois do jantar, quando todos se sentaram na sala para ver um DVD, já estava outra vez bem-disposto.

"Bom dia", renova na manhã seguinte Nuno, toxicodependente de 22 anos que foi eleito sublíder da semana. Com o líder Carlos, alcoólico, acorda os colegas, distribui tarefas de manutenção e gestão da casa (todas as sextas-feiras é feita uma limpeza geral á casa, em que cada um é responsável por uma divisão), guarda as chaves da despensa, liga a televisão depois do jantar e desliga-a duas horas depois. Também lhe compete convocar os habitantes da casa para as refeições e reflexões matinais -onde cada um fala das expectativas para o dia depois de dizer: "Só por hoje quero manter-me limpo e sóbrio."

"Isto não é um campo de férias", avisam os terapeutas ao longo dos tratamentos de no mínimo, seis meses. O horário de trabalho é das 9h às 17h, com poucos intervalos para fumar um cigarro no alpendre. Quem se atrasa fica de castigo, como Paulo, que não chegou ao pequeno-almoço a horas e agora tem de lavar a loiça sozinho – e à mão.

Quem visse Nuno há poucos meses não acreditava que ele fosse capaz de administrar uma casa. Mesmo depois de entrar para Villa Ramadas, quebrou algumas regras: por exemplo, tentou envolver-se com duas pacientes. Não é permitido estar no quarto com pessoas do sexo oposto. "Quando me descobriram, fui transferido para esta casa. Também me podiam ter dado outro castigo: a 'terapia da realidade', em que os adictos vão para casa durante um mês. A maioria tem recaídas."

NUNO SEMPRE TEVE relações complicadas com mulheres. Aos 14 anos, encontrou a melhor amiga, esquizofrénica, enforcada na sala. Aos 16 foi expulso da escola por se ter envolvido com uma professora. Pouco depois, conheceu a mulher quase 20 anos mais velha que o iniciou nas drogas pesadas. "Começa-mos a namorar, fui viver com ela e, passado pouco tempo, comecei a ser vítima de violência doméstica. Fui parar ao hospital duas vezes inconsciente. Ela chegou a bater-me com um taco de basebol.".

Nuno decidiu ser internado no dia em que foi para a beira de uma linha do comboio pronto para se atirar. Já tinha roubado carros e vendido o computador para consumir heroína. Também tinha cortado relações com a família. "Na linha do comboio pensei: ou morro ou peço ajuda." Pediu ajuda. Na véspera de ser internado, tomou um frasco inteiro de metadona. "Não me lembro de nada do que se passou nos primeiros dias em que cá estive."

Ana aceitou rapidamente funcionamento de Villa Ramadas mas, três meses depois, continua a ter dificuldade em partilhar os sentimentos. "Sou a Ana, sou adicta e boa mãe", diz a depressiva no início de todas as terapias em conjunto. Mas depois remete-se ao silêncio. Quando teve de ler a sua história de vida (todos os pacientes escrevem uma biografia para ler aos outros hóspedes), mal dormiu com os nervos. Só então muitos colegas ficaram a saber porque ali estava.

Ana tentou matar-se pela primeira vez quando tinha 18 anos. Entrou em depressão profunda quando, alguns anos depois, o chefe dos escuteiros tentou violar a sua filha de 9 anos. Sem o apoio do ex-marido, voltou a tentar o suicídio. Mais do que uma vez. Foi internada em Psiquiatria, mas passou a tomar os medicamentos que lhe receitaram como queria -sempre em quantidades exageradas. Sem os comprimidos. Era incapaz de dormir uma noite inteira.

A FILHA PENSA que já está curada. "Quando falei ao telefone com ela, ri-me. Disse logo: 'Se estás a rir, já podes vir para casa” descreve, enquanto pinta as unhas no alpendre da casa. Ao contrário de Carlos, que recebe uma má notícia e fica deprimido o resto da noite. Ana fica excitada com o telefonema. Ainda assim, não pode ir já para casa. Tem mais três meses de tratamento pela frente. E, no dia a seguir aos telefonemas. é transferida para outra casa para ver se consegue ficar mais à-vontade nos maxigrupos. Os terapeutas chegam e simplesmente dizem-lhe: "Faz as malas o mais depressa possível." Ana nem teve oportunidade de se despedir de Catarina.

Na véspera de se ir embora, a financeira depressiva chamou todos para o seu "enterro". O grupo de adictos preparou-se para sair naquele fim de tarde gelado: todos vestiram os blusões, calçaram as luvas e puseram os gorros para ir para o campo de laranjeiras ao lado da piscina. Paulo pegou na enorme pá de madeira e começou a cavar. Depois, acendeu uma fogueira dentro do buraco. A anfitriã distribuiu pelos colegas folhas de papel com os trabalhos escritos que fez ao longo do tratamento e todos os colocaram em silêncio nas chamas. Já era de noite, mas os que não conseguiram conter as lágrimas nem tentaram disfarçar. No fim, como fazem sempre nas terapias de grupo, formaram uma roda, deram as mãos e rezaram a oração da serenidade: "Senhor, concedei-me a serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar, a coragem para mudar aquelas que posso e a sabedoria para perceber a diferença entre as duas." Depois gritaram: "Mais 24 horas!” Catarina continuava a chorar.

Os nomes dos adictos foram alterados para proteger a sua identidade.

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