Prefácio

Prefácio de Luís Maia, Jornalista SIC, da obra “ Viver sem Máscaras”

Os livros sempre me projectaram para universos intangíveis, para locais onde gostava de estar mas não podia, para experiências intensas, para junto de personagens com histórias de vida improváveis. Os livros fazem-me voar, ajudam-me tocar o infinito com a ponta dos dedos. Mas este é diferente. Este fez-me sentir completamente despido enquanto o lia. A cada página ficava com a sensação de que o autor sabia tudo sobre mim. Andaria ele a espiar-me às escondidas? Quem lhe teria contado episódios do meu passado? Quantas vezes olhei por cima do ombro, para ver se o Eduardo estava a observar-me, sorrateiro, para depois escrever acerca da forma como reajo aos desafios que a vida me propõe...

Percebi entretanto que não se tratava de uma questão pessoal. Afinal ele também perorava acerca da minha mulher, dos meus amigos, da minha família e de quase toda a gente que eu julgo conhecer bem. Ui, que o homem conhece os podres da malta toda!

Ocorreu-me depois que o autor esteja a escrever afinal acerca dele mesmo, pois fornece abundantes exemplos da sua própria vida para ilustrar os comportamentos errados acerca dos quais se propõe dissertar. O livro é sobre as máscaras e subterfúgios que podemos utilizar para não bater de frente com alguns dos nossos medos e angustias. E, se calhar, é um livro no qual todos podemos encontrar um pouco de nós mesmos. Talvez porque todos partilhemos da mesma base de dados de medos e angústias. Talvez porque quase toda a gente tenha alguma tendência para se esconder por detrás de uma ou outra máscara, quando não está na sua zona de conforto, ou quando sente o tapete a fugir por debaixo dos pés. Que atire a primeira pedra quem nunca sentiu pelo menos a tentação de o fazer! Quem sabe, seja por isso, que o autor parece saber tanto acerca de tanta gente...

“Porque é que tenho tanto medo de me mostrar como sou verdadeiramente?” - pergunta o Eduardo a determinada altura da narrativa. “Porque se o outro não gostar daquilo que vê, não tenho mais nada para oferecer” - responde ele próprio de seguida. Nunca tinha pensado nisso nestes termos. Mas como passo o tempo a dizer aos meus amigos que o mais básico e prevalecente instinto da espécie humana é o da sobrevivência e como gosto de ser coerente com as minhas convicções, tenho de admitir que a resposta do Eduardo à questão que ele próprio formula, está intimamente ligada ao instinto de sobrevivência. Porquê? Porque ninguém vive como se mais ninguém existisse no mundo. Porque toda a gente precisa de alguém. E porque toda a gente gosta de ser aceite. Talvez daí nasça o receio de decepcionar os outros ou de ser alvo de criticas. Talvez daí nasça a necessidade de usar máscaras que possam disfarçar fragilidades.

O problema é que estas máscaras não permitem que nos mostremos como somos. São tão densas que emprestam opacidade ao que existe de mais genuíno dentro de nós.

Somos únicos! Inimitáveis! E é isso que nos torna especiais. A nossa originalidade reside nas qualidades que evidenciamos, mas também nos defeitos. Demonstra-se pelos grandes feitos, mas também pelos erros. As máscaras podem até disfarçar falhas, mas turvam também a visão de quem tenta encontrar as nossas qualidades.

Uma das qualidades que mais prezo nas pessoas é a autenticidade. Gosto de gente que se assume como é, com as suas qualidades e defeitos. É preciso ser honesto e corajoso para o fazer. E neste livro, o autor, descodifica as situações em que não estamos a ser nós próprios, mesmo que não o percebamos. Depois ajuda a perceber porque é que isso acontece. E fornece ainda formulas simples para mudar de conduta, ou ajudar aqueles que nos rodeiam a fazê-lo.

É muito curioso que a cada máscara que o Eduardo descreve nesta obra, reconheço algum comportamento protagonizado por mim numa qualquer circunstância, ou comportamentos das pessoas que me rodeiam. E mais curioso ainda é associar as descrições dele a situações que vivo ou presencio à minha volta quase todos os dias, quase como se pudesse ver o mundo com uma espécie de visão raio-x, que enxerga para além da superfície.

Comecei o prefácio por dizer que este livro me fez sentir despido. Termino a dizer que, na verdade, graças a ele vejo quase toda a gente à minha volta completamente desnudada, numa ou noutra situação da vida. Sem segundas intenções, é claro. A culpa é do Eduardo. Mas já o perdoei, porque depois de ter devorado a última réstia de prosa desta obra, dei conta de ter conseguido recuperar as peças de indumentária entretanto perdidas. Pelo menos as minhas... porque a forma como olho para o mundo, nunca mais voltará a ser a mesma.

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