Prefácio

Prefácio de Mafalda Gameiro, coordenadora da grande reportagem, RTP, do bestseller “Acredita em Ti”

Chorei. É‐me permitido? É‐me permitido mostrar o que sinto? É‐me permitido sentir e revelá‐lo? Não sei, mas fi‐lo.

E logo me perguntei: – Porque é que só o fizeste quando já não havia provas da tua «fraqueza»? Porque não o fizeste enquanto escutavas o mais íntimo dos pormenores, a verdade dura de quem é capaz de entrar na consciência e de travar com ela um duelo, gladiar‐se até ao fim, mas saber que vai vencer, porque tem a melhor das armas, que se chama a verdade.

Aconteceu. Eu chorei. Foi no final de uma entrevista. A minha entrevistada tinha idade para ser minha filha e eu para ser sua mãe. A minha entrevistada recebeu dos seus pais uma educação abonada de valores; a minha entrevistada era uma excelente aluna, bonita e cuidada; a minha entrevistada tinha pela frente desejos; a minha entrevistada sonhava com uma carreira bem‐sucedida depois de terminar a universidade, mas a minha entrevistada caiu e eu caí com ela naquele momento.

Que momento foi esse?

A minha entrevistada perdeu as memórias de infância, perdeu o gosto pela vida, perdeu o discernimento, perdeu parte do seu pai e da sua mãe quando estes se deram conta de que a filha que cuidaram e amaram não era exactamente a pessoa que tinham à sua frente.

A minha entrevistada mergulhou noutro mundo, que às vezes não tem volta. A minha entrevistada experimentou, voltou a experimentar, e fê‐lo uma, duas, três, dezenas de vezes ou até centenas. Foi‐se consumindo até que alguém lhe estendeu a mão e disse: «Espera, nós ainda vamos a tempo».

E foi nesta viagem de regresso, nesta limpeza do eu, nesta batalha com a consciência, que conheci a minha entrevistada. Está a regressar aos poucos desse mundo químico que a cor‐ roeu por fora e por dentro.

A câmara desligou‐se. Eu tinha conseguido mais do que uma boa entrevista. Tinha conseguido com aquela conversa sincera que a minha entrevistada recuperasse um episódio de infância que ela julgava perdido, uma festa de aniversário.

A câmara desligou‐se e eu chorei. Não faz mal.

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