Espelho inimigo

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Anónimo

Numa fase da minha vida em que me sentia um verdadeiro monstro, em que nem me conseguia sequer olhar ao espelho, nem ir comprar roupa, decidi que tinha que tomar uma medida drástica. Então, estupidamente, em vez de recorrer a um nutricionista para me passar um plano de alimentação saudável, tomei a pior decisão, sem ter noção de que isso iria afectar a minha vida. É verdade, confesso que fui uma fraca e que me tornei bulímica, assim do nada, sem nada que o fizesse prever.

Eu que sempre fui uma rapariga certa e consciente dos perigos deste tipo de atitudes, acabei por cair nesta adição. Desesperada e sem paciência para esperar os efeitos de uma dieta, pensei em começar a forçar o vómito só por um determinado tempo, pelo menos até me sentir mais magra. Assim foi, sempre que terminava as refeições, lá ia eu com os dedos à boca…

Logo na primeira semana comecei a ver resultados e andava encantada da vida, afinal era tão simples perder peso. Mesmo assim continuava sem me conseguir ver ao espelho. Assim, até uma simples maçã eu vomitava. Emagrecia a olhos vistos, mas nunca me sentia satisfeita, tornando-me mesmo obcecada com a minha imagem. Como já não vivia com os meus pais, tornava-se mais fácil e quando os visitava dizia que era do cansaço que estava magra. Tendo eles uma baixa formação académica, não faziam ideia da doença que eu tinha e acreditavam mesmo que era apenas cansaço, tendo-me inclusivé comprado vitaminas para ter energia.

Além disso, quando estava com eles comia imenso para não levantar suspeitas. Mas a minha obsessão por emagrecer era cada vez maior, chegando a haver dias que forçava o vómito de tal força, que sem forças para me levantar, acabava por adormecer na casa de banho. Ainda me custa recordar estes anos de bulimia, em que deixei de viver e me tornei um autêntico esqueleto sem alma. Depressa cheguei aos 35 quilos, menos 25 quilos do que deveria ter, tendo em conta a minha estatura. Mas quis o destino que conseguisse ser salva deste tormento.

Um dia, estava em casa dos meus pais e entrei em coma, com a cabeça enfiada no lavatório. Depois de dois meses internada, regressei a casa, mas sabia que estava doente a precisar de ajuda urgente. Não podia ter escolhido melhor clínica para me tratar.

Aqui ensinaram-me a ter auto-estima e a aceitar-me como sou. A verdade é que já me aceitei e adoro a pessoa em que me tornei.*

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